A música e o autismo
Qual a sensação de escutar o solo de um violino? Ou o bater de um tambor juntamente com as viradas do maracatu? As palavras que passeiam na melodia dentro do ritmo, te impulsiona a algo? Com certeza para cada um de nós, apesar de estarmos ouvindo a mesma música temos a capacidade de senti-la de um jeito completamente diferente.
A música envolve muito mais do que a melodia. Ela tem volume, frequência, ritmo repetição, timbre, camadas sonoras, previsibilidade, mudanças bruscas e silêncio. Para algumas pessoas autistas, ouvir música não é apena escutar uma sequência de sons, mas experimentar uma paisagem inteira de sensações. Determinadas características sensoriais dos sons podem ser percebidas de maneiras especialmente intensa ou desconfortável. Para outras, certos sons ou músicas podem ser profundamente reguladores, prazerosos e envolventes. Há também pessoas autistas que não tem uma experiência musical particularmente diferente, até porque não existe uma maneira autista de ouvir música.
🎧 O som que que para uns é fundo, para outros pode ocupar o primeiro plano.
Para uma pessoa, existe música acompanhada de conversa, barulho de talheres, pessoas andando … tudo parece formar um único ambiente. Para outra pessoa, determinados sons podem se destacar de maneira muito mais intensa. O zumbido de uma lâmpada, uma voz específica, uma cadeira arrastando, uma frequência da música.
Não significa necessariamente que a pessoa “ouve melhor. ” Pode significar que a experiência de filtragem e integração dos estímulos sensoriais é diferente. Existem muitos sons em uma música, será que percebemos todos? A música pode ser prazer, organização, previsibilidade, memória, expressão e conexão. Ritmos repetitivos podem ser confortáveis para algumas pessoas. Uma determinada música pode ajudar alguém a se regular. Uma sequência musical conhecida pode oferecer previsibilidade. Um som pode despertar uma memória ou uma emoção muito intensa. Algumas pessoas autistas desenvolvem interesses musicais profundos, explorando artistas, gêneros, instrumentos, estruturas, letras ou padrões sonoros com enorme atenção.

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode influenciar diferentes aspectos da comunicação, da interação social e do comportamento. Sua origem está relacionada a múltiplos fatores e suas manifestações podem estar presentes desde os primeiros anos de vida. As características associadas ao autismo apresentam grande diversidade, tanto em relação à forma como se manifestam quanto à intensidade com que podem ser percebidas em cada indivíduo. Entre essas características que podem estar presentes encontram-se diferenças na comunicação e na expressão de afetos, na interação social, no contato visual, na atenção compartilhada e na percepção de determinadas situações de risco. Também podem ocorrer particularidades relacionadas ao processamento sensorial, à relação com objeto, à linguagem e à manifestação de comportamentos repetitivos ou de maior intensidade diante de determinadas situações. É importante ressaltar que essas características não estão presentes da mesma maneira em todas as pessoas autistas, uma vez que o espectro apresenta significativa heterogeneidade.
Estima-se que aproximadamente 71% das pessoas autistas possam apresentar algum transtorno mental concomitante, enquanto cerca de 41% apresentariam duas ou mais condições associadas. Entre as manifestações mais frequentemente relatadas estão os transtornos depressivos e de ansiedade, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), as fobias e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), entre outras condições.
A experiência subjetiva da frequência sonora chega para cada um de uma maneira completamente diferente. Isso ultrapassa o autismo e nos traz uma reflexão sobre empatia e percepção. Não precisamos experimentar o mundo exatamente como outra pessoa para reconhecer que a experiência dela é real. Entre as características que podem estar presente no Transtorno do Espectro Autista (TEA), encontram-se particularidades relacionadas à compreensão e à atribuição de significado às situações e aos objetos. Por integrar elementos como ritmo, melodia, organização sonora e expressão emocional, a música pode contribuir para a percepção das relações entre diferentes partes e para a compreensão de experiências de maneira mais integrada. Dessa perspectiva, a vivência musical pode favorecer diferentes dimensões do desenvolvimento do indivíduo.
O desenvolvimento das habilidades musicais está relacionado ao ensino da música e à possibilidade de desenvolver a percepção de seus diferentes elementos. Nesse sentido, o contato sistemático com experiências musicais pode favorecer não apenas a aquisição de conhecimentos específicos sobre música, mas também a exploração de capacidades perceptivas, cognitivas, motoras e expressivas.
Uma abordagem relacionada à estimulação auditiva é o método TOMATIS, desenvolvido pelo médico e pesquisador francês Alfred A. Tomatis (1920 – 2001). A proposta surgiu a partir de suas concepções sobre a relação entre audição, linguagem, fala e aspectos relacionados ao funcionamento mental. O método utiliza estímulos sonoros processados eletronicamente, incluindo diferentes frequências, e fundamenta-se na ideia de que a estimulação auditiva poderia contribuir para determinados aspectos do processamento dos sons. O método TOMATIS apresenta algumas características semelhantes às propostas de Terapia de Integração Auditiva, embora utilize procedimentos específicos de filtragem e modificação das frequências sonoras. Segundo estudos citados na literatura, intervenções baseadas nessa abordagem foram investigadas em crianças com TEA, especialmente quanto a aspectos relacionados ao processamento auditivo. Alguns trabalhos também relataram possíveis efeitos sobre aspectos como interpretação e qualidade do sono, embora sejam necessários estudos adicionais para estabelecer com maior segurança a eficácia e os mecanismos envolvidos.
A relação entre música, estimulação auditiva e respostas fisiológicas, sugere que a exposição a diferentes estilos musicais pode estar associada à redução de determinadas respostas fisiológicas relacionadas ao estresse e à promoção de estados de relaxamento e bem-estar. Nesse contexto, a utilização da música de maneira individualizada pode ser considerada uma possibilidade de adaptação das intervenções às características e necessidades específicas de cada pessoa com TEA.
Se transformássemos uma música em cores, cada pessoa produziria exatamente a mesma paisagem?

A música possui múltiplas dimensões sensoriais e cognitivas. Uma pessoa pode prestar atenção ao ritmo, outra à melodia, outra ao timbre, outra pode se concentrar em determinadas frequências ou padrões repetitivos. Podemos associar as cores como uma partitura sensorial para entendermos como permite essa percepção quanto à individualidade e neurodiversidade, porém nem todas as pessoas autistas vivenciam a música da mesma maneira.
Nesse modelo, uma música deixaria de ser apenas algo que ouvimos e passaria a ser imaginada como algo que podemos ver, sentir e percorrer.
nota → cor
melodia → sequência de cores
harmonia → combinação de cores
ritmo → velocidade das mudanças
intensidade → luminosidade
timbre → textura
silêncio → espaço
| Elemento musical | Exemplo | Cores | Sensação/associação possível |
| Nota Dó (C) | Dó central | 🟠 Vermelho | Presença, início, estabilidade |
| Nota Ré (D) | Ré | 🟠 Laranja | Movimento, impulso, expansão |
| Nota Mi (E) | Mi | 🟡 Amarelo | Luminosidade, abertura, alegria |
| Nota Fá (F) | Fá | 🟢 Verde | Equilíbrio, tranquilidade, natureza |
| Nota Sol (G) | Sol | 🟢 Azul | Amplitude, liberdade, contemplação |
| Nota Lá (A) | Lá | 🟣 Violeta | Profundidade, introspecção, emoção |
| Nota Si (B) | Si | 🟢 Branco | Suspensão, expectativa, passagem |
| Melodia | Sequência de notas | 🌈 Gradiente de cores | Movimento, narrativa, percurso |
| Harmonia maior | C–E–G | 🟡 Dourado | Consonância, luminosidade, sensação de abertura |
| Harmonia menor | A–C–E | 🟡 Azul-escuro | Introspecção, profundidade, melancolia |
| Acorde dissonante | C–F♯ | 🟣 Roxo intenso | Tensão, estranhamento, expectativa |
| Ritmo lento | 50–70 BPM | 🟡 Azul | Calma, repouso, contemplação |
| Ritmo acelerado | 120–150 BPM | 🟠 Laranja | Energia, movimento, excitação |
| Silêncio | Pausa musical | 🟠 Preto | Espaço, suspensão, expectativa |
| Crescendo | Som aumentando | 🌅 Amarelo → laranja | Expansão, intensidade, aproximação |
| Decrescendo | Som diminuindo | 🌆 Vermelho → violeta | Distanciamento, relaxamento, encerramento |
A musicoterapia pode ser utilizada como recurso para auxiliar na regulação de comportamentos e estados emocionais que possam dificultar a participação e a interação incluindo situações de isolamento, agitação, comportamentos repetitivos, estereotipias, tensão emocional e dificuldades relacionadas à comunicação. Nesse contexto, as experiências musicais podem oferecer oportunidades para que a pessoa desenvolva estratégias de adaptação diante de mudanças, variações e novas situações respeitando seu próprio ritmo.
Entre as possibilidades da intervenção musicoterapêutica estão o estímulo à comunicação, à autoexpressão, à organização temportal, à regulação emocional, à flexibilidade diante de mudanças e ao desenvolvimento das interações sociais. Esses objetivos devem contudo ser estabelecidos de maneira individualizada, considerando as características, preferências, necessidades e potencialidade de cada pessoa com TEA. Crianças com TEA demonstram déficits em iniciar e em seguir a atenção compartilhada. Algumas crianças autistas, podem ser observadas particularidades na forma como as informações visuais provenientes do rosto são percebidas e processadas. Em determinadas situações, pode haver a menor tendência à exploração facial, como os movimentos dos olhos, das sombrancelhas e da testa, recebem menor atenção. É importante considerar a heterogeneidade do espectro, uma vez que essas características não estão presentes de forma uniforme em todas as crianças autistas.
A pedagogia Waldorf por exemplo, pode oferecer um ambiente educacional favorável para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente por valorizar o desenvolvimento individual e respeitar o ritmo de aprendizagem de cada criança. Nessa perspectiva busca-se evitar uma inclusão baseada exclusivamente na adaptação da criança a padrões previamente estabelecidos, priorizando, em vez disso, estratégias que considerem suas particularidades, necessidades e potencialidades. Dessa forma, o processo educativo pode favorecer a participação e o pertencimento sem exigir que a criança abandone suas características individuais para se adequar ao grupo.
No contexto da musicoterapia com crianças autistas, as particularidades na percepção e no processamento de informações sociais podem ser consideradas no planejamento das atividades terapêuticas. A música oferece recursos que não dependem exclusivamente do contato visual ou da comunicação verbal, possibilitando que a criação participe de experiências de interação por meio do ritmo, da melodia, da repetição, dos gestos e da produção sonora. Atividade como cantar em conjunto, acompanhar ritmos com instrumentos, realizar pausas e responder musicalmente aos estímulos do terapeuta podem favorecer oportunidades de atenção compartilhada, troca comunicativa e percepção de diferentes sinais expressivos.
Dessa maneira, a musicoterapia pode constituir um espaço de comunicação e interação no qual a criança tenha diferentes possibilidades de expressão e participação, respeitando suas características sensoriais, seu ritmo e suas formas particulares de estabelecer contato com o outro.

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